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de uma Brasileira na França, a ilusão do Primeiro Mundo

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  • de uma Brasileira na França, a ilusão do Primeiro Mundo

    A ilusão do Primeiro Mundo

    Não vou mentir: aqui na França eu posso andar de relógio e jóias (discretas) na rua, à exceção de alguns bairros; eu poderia colocar o braço pra fora do carro, se dirigisse; eu saio de manhã sem me perguntar se vou voltar viva à noite, sabendo que se eu ficar presa num engarrafamento o máximo que perderei é tempo, não correndo o risco de ver uma arma apontada pra mim pela janela (fechada). E isso me dá muita tranqüilidade.

    Mas isso basta? Eu tenho medo de sair à noite sozinha e de pegar o metrô ou andar em algumas áreas de Paris. Há mendigos, pequenos assaltantes e, principalmente, loucos e tarados na rua – parece que, abaixo de um certo “nível” de loucura, o Estado não aceita incarcerar os doentes mentais, e eles vivem soltos na rua, geralmente sem família para dar apoio e/ou controlar. Há também muitos desempregados que, recebendo o seguro-desemprego (e apenas em teoria sendo obrigados a procurar um emprego), não fazem nada da vida e passam o dia na rua, bebendo ou se drogando – e enchendo o saco de qualquer menina que passe. Amigas francesas dizem que deixaram de usar saia em Paris, depois de várias situações perigosas.

    Por que então a gente suspira e sonha dizendo “ah, a França, Primeiro Mundo...”? O que nos prova que estamos no tal Primeiro Mundo, aqui? Tomemos como princípio da reflexão que seja o desenvolvimento econômico de um país. Certo, certo – então podemos dizer que a França, um dos países-membro do G8, seja Primeiro Mundo. Mas, concretamente, o que isso deveria querer dizer – pra mim, pra cada pessoa que mora aqui? Se imaginarmos que esse desenvolvimento econômico deva se traduzir em um certo grau de conforto para os habitantes... então, de novo, não acho que a França seja tão hors concours assim na classificação de Primeiro Mundo. No verão, por exemplo: impossível de se encontrar uma loja, um táxi, um hotel com ar-condicionado. Os banheiros dos restaurantes, museus e aeroportos são imundos, com papéis no chão e manchas nas privadas. Você pode sentar num café charmoso – aqueles com os quais todo mundo sonha, pensando “Ah, Paris!” – e ver-se recusar o serviço por um garçon que não gostou de uma resposta do cliente.

    Não há, simplesmente não há, a noção de serviço na França – por que um cliente deveria ser bem tratado, se os vendedores não ganham por comissão e nem podem ser demitidos facilmente? Uma amiga brasileira conta que quase foi demitida ao servir uma cliente numa loja depois que esta esqueceu de dar bom-dia a uma outra vendedora que, ofendida, se recusou a servi-la. Também não existe a noção de fila – as pessoas esperam em frente a um guichê emboladas, sem ordem precisa, azar o seu se chegou primeiro – e uma cena muito comum é ver velhinhas em pé nos ônibus, quase caindo por cima de quarentões de paletó que nem se lixam.

    Continuemos. Educação, higiene, segurança então não estão presentes na França – mesmo sendo aqueles itens que a gente costuma colocar na lista de atributos do tão sonhado Primeiro Mundo. Talvez a noção de família, valores nobres defendidos por todo o país?

    Errado de novo. 10.000 velhinhos morreram entre os meses de julho e agosto, devido ao calor extremo enfrentado na Europa esse ano. Além de mostrar um despreparo francês para lidar com um verão mais quente – os prédios são construídos para o inverno, para reter o calor no interior dos apartamentos, e mesmo hospitais não dispõem de ventiladores (“só fazem espalhar ar quente”) ou ar-condicionados (“dão dor de garganta”). Mas a principal causa da morte desses velhinhos foi o abandono. 75% da população idosa na França vive totalmente só, mesmo tendo família – os filhos e netos simplesmente não visitam e não telefonam. Muitas famílias viajaram no verão deixando os avós em casa, no calor. Os velhinhos têm uma resistência mais baixa à temperaturas extremas, e parece que a morte por desidratação vem sem dar sinal de alarme – a pessoa sente-se encalorada, senta-se pra descansar e recobrar o fôlego, perde consciência e morre.

    Dos 10.000 velhinhos mortos de calor, incontáveis são aqueles que não foram identificados porque as famílias não vieram recuperar os corpos. Talvez estejam de férias há um mês e tanto e nem tenham pensado em ligar pros pais e avós. Talvez já saibam que morreram mas achem que não vale a pena interromper as férias. Talvez simplesmente não se importem.

    Há, é claro, muitas coisas boas na França ao lado desses horrores – assim como há maravilhas no Brasil, mesmo com as dificuldades que temos. E, portanto, um país é de Primeiro Mundo, o outro é do Terceiro.

    Minha intenção não é contestar os tradicionais critérios sócio-econômicos que deram origem à essa classificação, mas eu gostaria que todos os brasileiros parassem pra refletir na imagem que temos do nosso país.

    Será que tudo não é uma questão de auto-estima?

    Aqui na França, mesmo nas piores crises, poucos são aqueles que ousam dizer que há algo de podre no Reino. O símbolo francês é um galo – a expressão “cantar de galo” corresponde perfeitamente à minha tese aqui – e o “cocorico” francês é a atitude de todos: gabar-se mesmo quando não há motivo. Quem sabe os outros acreditam?

    No Brasil, no entanto, o que acontece? A gente viaja pro exterior e, quando vê um grupo de brasileiros falando alto, o que fazemos? Paramos rapidamente de falar português, com medo de sermos ligados àqueles bárbaros, e falamos envergonhados, “só podia ser brasileiro, ê povinho...”. Se um carro pára pra dar passagem a um pedestre, nos apressamos a dizer: “ê, Primeiro Mundo... ah, se no Brasil fosse assim...”.

    Pois olhem, isso eu vou dizer do alto da minha experiência de 4 anos na França: o Brasil dá de dez a zero na França, em matéria de civilização. Não é ufanismo barato não, é reconhecimento do que é nossa vantagem. Somos nós o Primeiro Mundo: somos nós os educados, os limpos, os ordeiros. Nós os trabalhadores, nós os dedicados, nós os honrados e dignos. Um brasileiro acorda às 5 da manhã no seu barraco pra pegar 3 ônibus e ainda chegar no trabalho assobiando e sorrindo. Um francês deixa pra lá um cargo que é entediante porque sabe que os outros vão pagar impostos pra dar-lhe o seguro-desemprego.

    Somos um país jovem. Sim, temos problemas graves de concentração de renda, miséria, falta de oportunidades, mas ao menos temos a coragem de lavar nossa roupa suja. Sobre a violência, um dado surpreendente: o Rio e São Paulo ficaram no nível “6” de cidades violentas (“8” sendo Bagdad e Bogotá, por exemplo), e Paris ficou no nível “5”. Temos corrupção? Claro. Mas... os interesses dos países ricos, esmagando os pobres, não é também uma forma de desrespeito, “corrupção”?

    Pro Brasil chegar a “Primeiro Mundo” econômico, basta apenas que acreditemos que ele já é “Primeiro Mundo” em valores. Cada um fazendo a sua parte, mesmo que pequena, na luta contra a corrupção, a violência e a miséria, um dia a gente chega lá. E sem esquecer quem somos e tudo o que passamos.

    Flabb, 28 anos, carioca morando na França há 4. Não é so de pão de queijo que ela tem saudades, quando pensa no Brasil.

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